O que a imaginação deve à pesquisa

Há um mito persistente — e confortável — de que a ficção nasce apenas do sopro da imaginação. Como se bastasse fechar os olhos, acender um cigarro metafórico e deixar as palavras caírem prontas no papel. A verdade é menos romântica e muito mais honesta: escrever, mesmo fantasia, é um exercício rigoroso de pesquisa. Talvez principalmente quando se inventa mundos.

Os grandes livros não improvisam. Eles investigam.

Veja o caso de Dan Brown. Por trás da aparência de thrillers ágeis e capítulos curtos, há anos de estudo obsessivo. Brown passa longos períodos mergulhado em simbologia, história da arte, criptografia, religião, arquitetura. Não por acaso, sua próxima obra — The Secret of Secrets, ainda inédita — levou anos sendo gestada. Não é lentidão criativa; é zelo. Ele sabe que um erro factual pode quebrar o pacto silencioso com o leitor. E pacto quebrado não se recompõe.

Outro exemplo ainda mais radical. J. R. R. Tolkien não começou com personagens. Começou com geografia. Antes de Frodo dar um passo, as Terras Médias já existiam: montanhas, rios, fronteiras, línguas, eras históricas. Só depois disso O Senhor dos Anéis ganhou vida. Tolkien não escrevia histórias; ele documentava um mundo que já funcionava por conta própria. Por isso tudo parece real — porque, estruturalmente, é.

No noir, essa exigência é ainda mais cruel. O leitor fareja atalhos. Procedimentos errados, tempos irreais, decisões policiais artificiais saltam da página como uma confissão mal feita. Por isso, a pesquisa não é acessório: é coluna vertebral.

Eu trago essa preocupação comigo desde sempre. A Trilogia Mandamentos não nasceu em meses nem em anos. Ela levou três décadas para ser construída. Não porque a história demorasse a aparecer, mas porque precisava amadurecer no tempo certo. Cada crime, cada cena investigativa, cada silêncio foi sendo lapidado com observação, escuta e memória.

Minha profissão ajudou. Como jornalista, acompanhei investigações reais, ouvi delegados, peritos, promotores. Vi o peso da burocracia, o ritmo lento das apurações, os erros, os acertos, as vaidades e as frustrações. Quando escrevo uma cena policial, não estou inventando procedimentos — estou reorganizando experiências. A ficção entra no enredo, mas a ossatura é real.

Pesquisar é um ato de respeito. Ao leitor, que confia. À história, que exige coerência. E ao próprio autor, que sabe que não está apenas contando algo — está sustentando um mundo inteiro com palavras.
No fim das contas, escrever não é acelerar. É aprofundar. Porque histórias feitas às pressas até podem impressionar no começo, mas só aquelas construídas com paciência continuam ecoando quando o livro se fecha.

Cristiano Alves

É escritor, jornalista e estrategista de comunicação. Atua na criação de narrativas de ficção noir e conteúdos jornalísticos para veículos regionais, além de desenvolver projetos especiais de branding, campanhas institucionais e marketing político. Com escrita precisa e atmosfera densa, transita entre literatura, jornalismo e comunicação estratégica, unindo técnica, impacto e visão narrativa.

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