Alchemised: um déjà vu inevitável

Li Alchemised como quem entra num beco conhecido à noite. A iluminação muda, os prédios são outros, mas o cheiro… o cheiro é familiar. Ferro, magia antiga, culpa, poder. E memória — sempre a memória como moeda de troca.
Vou ser justo desde o início: meu julgamento não é neutro. Sou fã de Harry Potter. Cresci naquele mundo. E, sim, dane-se as ideologias da J.K. Rowling — aqui estamos falando de literatura, de impacto narrativo, de imaginário coletivo. Quem viveu aquilo carrega marcas. E essas marcas influenciam o olhar.
Dito isso, negar as semelhanças entre Alchemised e o universo potteriano seria desonesto.
A estrutura está lá.
O regime opressor pós-guerra.
A resistência que falhou.
O passado apagado como mecanismo de sobrevivência.
A protagonista feminina quebrada, perigosa, inteligente — mais do que lembra, mais do que admite.
Não é cópia. Mas também não é coincidência.
SenLinYu escreve como quem conhece profundamente o trauma de um mundo mágico que deu errado. E isso faz sentido quando se sabe de onde essa história veio. Alchemised não nasce do zero. Ele nasce da reescrita, da transmutação — o próprio título já confessa o crime.
O mérito do livro está no tom. Aqui não há encanto juvenil. Não há Hogwarts iluminada. O que existe é cinza, é necromancia institucionalizada, é poder sustentado por cadáveres e silêncio. A magia virou instrumento de dominação — não de descoberta. E isso é adulto. É cruel. É interessante.
Helena Marino não é uma escolhida. É uma sobrevivente.
E sobreviventes não brilham — rangem.
A narrativa é densa, deliberadamente lenta em certos trechos, quase claustrofóbica. O leitor não é conduzido pela mão; é empurrado escada abaixo. Isso aproxima Alchemised mais do noir do que da fantasia épica tradicional. A investigação aqui não é de um crime, mas da própria identidade. Cada lembrança recuperada funciona como uma pista — e como uma ameaça.
Ainda assim, minha crítica permanece: há momentos em que o livro se apoia demais no repertório emocional de quem veio de Harry Potter. Certos arquétipos funcionam rápido demais porque já os conhecemos. Isso acelera a empatia, mas também reduz o impacto do inédito.
Talvez esse seja o preço do sucesso.
Alchemised é um ótimo livro. Forte, sombrio, bem escrito.
Mas ele brilha mais para quem já esteve naquele outro mundo mágico — aquele que aprendemos a amar antes de aprender a desconfiar.
Meu julgamento? Contaminado.
Mas não inválido.
Porque, no fim, todo leitor carrega seus fantasmas.
E alguns livros sabem exatamente como chamá-los pelo nome.

Cristiano Alves

É escritor, jornalista e estrategista de comunicação. Atua na criação de narrativas de ficção noir e conteúdos jornalísticos para veículos regionais, além de desenvolver projetos especiais de branding, campanhas institucionais e marketing político. Com escrita precisa e atmosfera densa, transita entre literatura, jornalismo e comunicação estratégica, unindo técnica, impacto e visão narrativa.

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