O Abraço Perdido do Papel

Houve um tempo, e não faz tanto assim, em que o silêncio da noite era quebrado apenas pelo som discreto das páginas sendo viradas. Antes de dormir, o ritual era quase sagrado. Um livro aberto, a luz baixa, o corpo cansado e a mente desperta. Ler não era exceção, era regra. Era nesse intervalo entre o dia que se encerrava e o sono que chegava que a literatura cumpria sua função mais nobre: formar o espírito.

Hoje, esse mesmo intervalo foi sequestrado pelas telas. O livro foi substituído pelo brilho frio do celular, pelas redes sociais, pelos vídeos curtos, pelos estímulos rápidos e descartáveis. O tempo que antes servia à reflexão agora se dissolve em rolagens infinitas. É uma realidade triste, não por saudosismo vazio, mas porque os números confirmam o enfraquecimento do hábito leitor no Brasil.

Dados recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostram que o brasileiro lê, em média, cerca de cinco livros por ano, sendo pouco mais de dois lidos integralmente. Em contraste, países europeus apresentam números significativamente mais elevados. Na França, a média ultrapassa quinze livros por ano. Na Alemanha, gira em torno de doze. No Reino Unido, aproxima-se de treze. Nos Estados Unidos, a média é de cerca de doze livros anuais. A diferença não é apenas estatística. É cultural, educacional e simbólica.

A leitura física, especialmente, carrega algo que o digital ainda não conseguiu substituir por completo. O peso do livro nas mãos, o cheiro da tinta, o amarelado das páginas com o tempo, as anotações feitas à margem, o marcador improvisado. O livro impresso exige presença. Ele não vibra, não interrompe, não disputa atenção com notificações. Ele pede entrega e, em troca, oferece profundidade.

Isso não significa demonizar os formatos digitais. E-books, leitores digitais e audiobooks ampliaram o acesso e salvaram muitos leitores do esquecimento. Mas é preciso fazer uma distinção fundamental. Ler qualquer coisa não é o mesmo que ler bem. Leitura por leitura não justifica o tempo gasto. Quando não há critério, o tempo se transforma em desperdício. A leitura só se converte em conhecimento quando é escolhida com responsabilidade, curiosidade e inteligência. É nesse momento que acontece a mágica silenciosa que atravessa séculos.

Não é por acaso que filósofos sempre valorizaram a literatura. Platão via nos textos um instrumento de formação moral. Aristóteles entendia a narrativa como caminho para a catarse. Nietzsche acreditava que os livros certos poderiam nos tornar mais fortes. Schopenhauer alertava que ler maus livros é perder um tempo irrecuperável. Todos, à sua maneira, sabiam que a literatura molda não apenas o pensamento, mas o caráter.

No meu caso, o gosto pela leitura nasceu cedo, ainda na adolescência. Não foram livros simples ou curtos. Eram obras extensas, densas, cheias de história, dor, beleza e sabedoria. Livros que exigiam fôlego, paciência e entrega. Talvez por isso tenham deixado marcas tão profundas.

A escola teve um papel decisivo nesse processo. Houve um tempo em que a literatura ocupava um lugar central na grade escolar. Foi ali que li Homero, com a Ilíada e a Odisseia. Camões, com Os Lusíadas. Camilo Castelo Branco, com Amor de Perdição. Machado de Assis, com O Alienista. Essas leituras não foram apenas obrigações acadêmicas. Foram portas abertas para o mundo.

A literatura também educa a linguagem. Ela melhora a gramática, amplia o vocabulário e refina o pensamento. Quem lê escreve melhor, fala melhor e pensa melhor. Não por pedantismo, mas por intimidade com a língua. A palavra bem usada é uma ferramenta de liberdade.

Talvez seja hora de aceitarmos uma verdade simples e incômoda. A rede social é entretenimento. É vídeo de gatinho, dancinhas, escândalos passageiros e, às vezes, algo mais apimentado. Nada além disso. Quando essa consciência chega, algo muda. O excesso cansa. O vazio aparece. E então, quase como um retorno ao lar, voltamos algumas décadas no tempo.

Voltamos ao livro. Ao cheiro de tinta e papel. Ao silêncio. E, finalmente, a nós mesmos.

Cristiano Alves

É escritor, jornalista e estrategista de comunicação. Atua na criação de narrativas de ficção noir e conteúdos jornalísticos para veículos regionais, além de desenvolver projetos especiais de branding, campanhas institucionais e marketing político. Com escrita precisa e atmosfera densa, transita entre literatura, jornalismo e comunicação estratégica, unindo técnica, impacto e visão narrativa.

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