O terror que sorri: Doutor Sono prova que o mal mais assustador é o que parece normal

Doutor Sono não é apenas a continuação de O Iluminado. É uma obra que decide enfrentar o legado do terror psicológico com maturidade, silêncio e tempo. Dirigido por Mike Flanagan, o filme abandona o susto fácil para investigar algo mais incômodo: como o mal envelhece, aprende e se adapta.

A narrativa acompanha Danny Torrance já adulto, lidando com os ecos do trauma infantil e com um dom que nunca o abandonou. Mas Doutor Sono não está interessado apenas na herança do passado. Seu verdadeiro foco está no presente. Nos predadores que caminham entre nós com aparência absolutamente comum.

É nesse ponto que surge Rose Cartola, interpretada com inquietante precisão por Rebecca Ferguson. Para construir a personagem, a atriz buscou referências fora do cinema, mergulhando em entrevistas reais com assassinos em série e psicopatas. O que mais a perturbou não foi a brutalidade explícita, mas o oposto disso: a normalidade.

Segundo Ferguson, muitos desses indivíduos falam com calma, são educados, articulados, até carismáticos. Pessoas que, à primeira vista, não despertariam qualquer alarme. Essa percepção molda toda a presença de Rose Cartola. Ela não grita, não se apressa, não perde o controle. Seu horror nasce da tranquilidade. Da convicção silenciosa de quem sabe exatamente o que está fazendo.

Flanagan compreende isso com inteligência rara. Em Doutor Sono, o mal não se anuncia. Ele se apresenta com um sorriso, uma conversa agradável, uma postura quase acolhedora. O terror não está no excesso, mas na contenção. Não na explosão, mas na certeza.

Essa lógica dialoga diretamente com os assassinos da Trilogia Mandamentos — sem qualquer spoiler. Assim como em Doutor Sono, o perigo não vem de figuras grotescas ou descontroladas, mas de personagens que operam sob a máscara da ordem, da fé, da moral ou da racionalidade. São homens e mulheres que aprenderam que o verdadeiro poder não está no barulho, mas na aparência de normalidade. No gesto calmo. Na palavra medida.

No fim, Doutor Sono reafirma uma verdade desconfortável: o horror mais duradouro não é o que grita — é o que fala baixo. É o que se senta à mesa, olha nos olhos e parece absolutamente confiável. E quando percebemos, já é tarde demais.

Um filme que não apenas expande o universo de O Iluminado, mas aprofunda uma ideia essencial para o terror contemporâneo: o mal, quase sempre, se parece demais conosco.

Cristiano Alves

É escritor, jornalista e estrategista de comunicação. Atua na criação de narrativas de ficção noir e conteúdos jornalísticos para veículos regionais, além de desenvolver projetos especiais de branding, campanhas institucionais e marketing político. Com escrita precisa e atmosfera densa, transita entre literatura, jornalismo e comunicação estratégica, unindo técnica, impacto e visão narrativa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao topo