Por C. Alves
Voltei da Bienal pensando naquele gesto tão comum diante de uma mesa de livros: alguém pega um exemplar, lê a contracapa e o devolve ao lugar. Para quem observa de longe, quase nada aconteceu. Para o autor sentado ali, uma esperança inteira pode ter cabido naquele movimento. Depois a pessoa segue pelo corredor, porque tem outros lugares para conhecer e ninguém é obrigado a carregar a nossa expectativa numa sacola.
Entendo esse leitor. Também tenho minhas preferências, procuro certos nomes nas livrarias e deixo muita coisa boa para uma próxima visita que nem sempre acontece. Seria cômodo responsabilizar o público pela frustração de quem escreve. Mas uma pessoa que reservou dinheiro e tempo para ir a uma feira tem todo o direito de voltar para casa com o livro que desejava, mesmo que passe a dois metros do meu sem perceber que ele existe.
Ainda há algo extraordinário em ver tanta gente reunida em torno de livros. Num país em que ouvir que ninguém lê virou quase um cumprimento entre pessimistas, aquele movimento dá vontade de ficar mais um pouco. A gente acompanha uma conversa, se distrai com uma capa, reconhece um escritor. Eu também estava ali como leitor, embora o autor, esse sujeito inconveniente, continuasse fazendo contas dentro da minha cabeça.
É quando os dois olham para o mesmo corredor que a experiência se complica. O leitor vê a fila e entende o entusiasmo de quem espera; o autor repara também nas mesas pelas quais quase ninguém passa. Estar no mesmo pavilhão produz uma impressão de proximidade que o tamanho dos estandes, a divulgação e o conhecimento prévio do público logo desfazem. O livro está ali, ao alcance da mão, mas ainda pode estar muito longe de ser encontrado.
Para quem começa, ver o próprio nome numa capa tem uma força difícil de explicar. A vontade é acreditar que, depois da publicação, alguma engrenagem vai se encarregar do restante. A Bienal ajuda a perceber quanto trabalho existe entre ter um livro impresso e fazê-lo chegar a alguém. O exemplar ocupa seu lugar na mesa, comportado, enquanto o autor descobre que precisará explicar muitas vezes por que uma pessoa deveria abri-lo.
As editoras também fazem escolhas, e seria ingenuidade esperar o mesmo investimento em todos os títulos. Há autores que recebem campanhas, espaço e uma apresentação ao público muito antes de chegar ao evento. Outros aparecem com o livro publicado e uma vaga esperança de que estar ali seja suficiente. Chamo os primeiros de ungidos pelo mercado, com alguma ironia, mas sem atribuir a eles culpa pela própria sorte. O incômodo está na facilidade com que se vende a impressão de que todos receberam a mesma oportunidade.
Daí a tratar o sucesso alheio como prova de uma literatura ruim vai uma distância que não pretendo percorrer. Há bons escritores cercados de leitores, assim como há livros esquecidos que talvez precisem de mais revisão do que de publicidade. A fila, sozinha, não resolve essa discussão. Para falar da qualidade de uma obra, ainda considero necessário o velho inconveniente de lê-la, algo que parece dispensável em certas sentenças publicadas com muita segurança.
O que me preocupa é o livro que sequer chega a entrar nessa conversa. O leitor reconhece uma capa porque já a viu numa livraria, numa resenha, na tela do celular; quando a encontra novamente, existe alguma familiaridade. Quem está começando costuma precisar apresentar tudo de uma vez, num intervalo curto e cercado de distrações. Não basta ter escrito uma história à qual dedicou anos. A pessoa diante da mesa ainda não sabe disso e, mesmo depois de saber, precisa descobrir se aquela história lhe interessa.
Em alguns momentos, a discussão em torno da Bienal pareceu mais interessada no atrito do que nas páginas. A polêmica oferece um atalho: permite tomar partido depressa, distribuir culpas e sair com a sensação de ter participado de um debate literário. Enquanto isso, falar de um personagem ou de uma escolha de linguagem exige uma atenção que não cabe tão facilmente na pressa. Como jornalista, reconheço o apelo do conflito; como escritor, lamento quando o livro acaba servindo apenas de cenário.
Também precisei examinar a parte que me cabia nessa história. É tentador pedir a um grande evento que resolva, em poucos dias, a dificuldade de encontrar leitores que nos acompanha durante o ano inteiro. A dimensão da feira alimenta essa expectativa: com tanta gente circulando, parece impossível que uma parcela não pare justamente diante de nós. Só que cada pessoa chega com seus desejos, seus horários e um caminho que não foi traçado para cruzar o nosso.
Voltei com vontade de cuidar melhor do que acontece fora daquele pavilhão. Isso inclui a escrita, naturalmente, mas também a maneira de apresentar os livros e a atenção a quem já decidiu lê-los. Um leitor que termina uma história e se lembra dela ao conversar com um amigo faz algo que nenhuma fotografia de estande consegue registrar. Não tenho como apressar esse percurso. Posso trabalhar para que a leitura mereça a indicação e para que o próximo interessado encontre o livro sem precisar procurá-lo como quem busca um endereço incompleto.
Essa responsabilidade não elimina a crítica ao mercado. Continuo querendo ver espaço de descoberta para autores que ainda não chegam acompanhados de uma plateia. O convite para conhecer uma voz nova precisa aparecer na programação, na divulgação e no interesse de quem organiza a conversa. Deixar uma mesa disponível e desejar boa sorte ao sujeito que se senta atrás dela é uma forma bastante limitada de apostar na literatura.
Quanto a mim, ainda gosto da imagem daquela pessoa diante de um livro desconhecido. Ela pode devolvê-lo e seguir adiante, como tantas vezes eu mesmo fiz. Pode também abrir numa página qualquer e demorar um pouco mais do que pretendia. É nesse pequeno atraso, impossível de marcar na programação da feira, que penso quando volto a sentar para escrever.
